Nascida em São José do Rio Preto (SP), Gilberia Cunha, conhecida no esporte como Gil Cunha, tem quase 30 anos de trajetória no universo da força e hoje é uma das principais referências mundiais no power bíceps e no supino. O caminho começou cedo e com dor: aos 15 anos, depois de sofrer bullying na escola, quando colegas a chamaram de “gelatina” por estar acima do peso, ela decidiu mudar a própria história e pediu à avó que pagasse sua matrícula na academia.
Sem redes sociais na época, Gil buscou inspiração em revistas de musculação e se encantou com a imagem de uma atleta forte, que virou meta de vida.
Ela ouviu de um professor que nunca chegaria naquele nível, mas respondeu que ainda voltaria com uma revista com seu próprio rosto na capa. Desde então, transformou a crítica em combustível para construir uma carreira marcada por títulos nacionais e internacionais tanto no fisiculturismo quanto nos esportes de força.

Faça parte do nosso grupo de ofertas no Whatsapp
- Corrida Para o Bem arrecada mais de R$16 mil para a APAE de Jales
- Veja os horários e onde serão transmitidas as semifinais do Paulistão
Do fisiculturismo ao powerlifting
Gil começou no esporte de força na modalidade de supino, em uma competição em São José do Rio Preto, já com título logo na estreia. Depois, entrou no fisiculturismo, onde competiu por cerca de dez anos, chegando a conciliar, por um período, o físico de palco com o levantamento de peso, algo raro entre atletas de alto rendimento.
Ela explica que bodybuilding e powerlifting exigem lógicas diferentes de preparação: no fisiculturismo, a dieta é mais rígida em proteínas, focada em definição e baixo percentual de gordura; no powerlifting e no power bíceps, a prioridade são os carboidratos e a energia para levantar cargas cada vez maiores. Conciliar campeonatos próximos nas duas frentes ficou inviável, porque “não dá para disputar esporte de força com 3% ou 5% de gordura e esperar ter a mesma potência”.
Nos últimos anos, Gil se consolidou definitivamente no esporte de força. Ela destaca como o powerlifting “explodiu” em visibilidade no Brasil, deixando para trás o estereótipo de atletas “sem shape” e abrindo espaço para competidores com físico trabalhado, vindos de diferentes modalidades.
Para ela, esse crescimento ajuda todo o ecossistema: “tem espaço pra todas as modalidades, mas o Brasil ainda olha para poucos esportes e esquece de outros”, resume.

Recordes, Arnold, Olympia e status de “mais forte do mundo”
A lista de conquistas de Gil é extensa. Em 2024, na Colômbia, em seu primeiro campeonato internacional, ela competiu no supino equipado e sem equipamento, foi campeã nas duas categorias, quebrou o recorde pan-americano e mantém a marca até hoje.
No power bíceps, soma quatro anos consecutivos com o maior peso feminino levantado do evento, incluindo o Arnold Classic South America, onde já bateu recordes mundiais e latino-americanos ao erguer cargas acima de 55 kg apenas na rosca direta.
No Mister Olympia, que, além do fisiculturismo, abriga modalidades como strongman, powerlifting e lutas, Gil também acumula quatro títulos mundiais no power bíceps, reforçando o rótulo de “mulher mais forte do mundo” em sua categoria.
Ela costuma dizer que cada troféu na estante tem uma história, mas admite que os mais recentes, em eventos internacionais e de grande visibilidade, marcaram um divisor de águas na carreira.

Rotina pesada, equipe forte
Quem vê Gil no pódio não imagina o tamanho da engrenagem que existe por trás. Personal trainer de formação, ela já periodizou o próprio treinamento por muitos anos, mas hoje divide essa responsabilidade com o preparador Val, da Academia Sport & Cia, em Rio Preto, onde faz os treinos específicos de supino e power bíceps.
A rotina é periodizada, alternando fases mais leves e outras de altíssima intensidade, sempre com foco em picos de performance próximos às datas das grandes competições. Ao redor dela, há uma rede de profissionais: o ortopedista Dr. Ricardo, o massoterapeuta José, a nutricionista Dra. Ana Lúcia, além do suporte das academias Sport & Cia e ARX, que cedem espaço de treino, e da Boa Fórmula, que auxilia com manipulados.
Gil também atua como embaixadora da Grands Auto Fit, empresa para a qual testa equipamentos de musculação, realiza análises biomecânicas e recebe um patrocínio mensal. Ela faz questão de ressaltar que “ninguém sobe sozinho no pódio”: cada título é construído em conjunto com essa equipe.
Arnold Sports Festival South America: supino e power bíceps no palco principal
Agora, o foco está totalmente voltado para o Arnold Sports Festival South America 2026, que acontece de 24 a 26 de abril no Expo Center Norte, em São Paulo, maior evento multiesportivo da América do Sul. Gil vai competir em duas frentes que domina: supino e power bíceps, tanto nas categorias equipadas quanto no formato raw, sem o uso de equipamentos auxiliares.
Acostumada aos holofotes do Arnold, onde já foi campeã e quebrou recordes, ela admite que o frio na barriga nunca some. Mesmo com quase três décadas dedicadas ao esporte de força, a semana que antecede o campeonato ainda é de ansiedade, nervosismo e expectativa. “Todo atleta sente isso, e é isso que nos mantém vivos no esporte”, diz.
A diferença é como ela lida com a pressão. Em vez de travar diante da arena lotada e dos olhares do público, Gil afirma que a energia da plateia a empurra para cima.
Em seus termos, estar cercada por tanta gente a incentiva a “puxar mais e levantar mais peso”. Para São José do Rio Preto, ela já é um símbolo. No Arnold Sports Festival, a missão é reforçar por que o mundo da força aprendeu a olhar para uma rio-pretense quando fala em recordes e superação.