Aos 14 anos, João Vitor Oliveira de Azevedo já vive uma rotina de atleta que muita gente só encontra na idade adulta. O jovem, morador de Araçatuba (SP), foi 3º colocado no Internacional da IBJJF disputado no último domingo (01), em Florianópolis (SC), na estreia na faixa laranja e em um dos circuitos mais fortes do jiu-jitsu mundial.
O adolescente competiu pela categoria peso pena, kids, com kimono, representando a academia New York Fight Club, do mestre José Lopes “Zelo”. O resultado mostrando frutos de uma trajetória iniciada em 2024 e revela que o sonho de viver do esporte já deixou de ser apenas imaginação para a família Azevedo.

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João Vitor aceitou um convite e não parou mais
João começou no jiu-jitsu em 6 de junho de 2024, aos 12 anos, quase por insistência da família. A mãe, Aline Barbosa de Azevedo, empreendedora, e o pai, Bruno Dantas de Azevedo, eletricista, já buscavam um esporte para o filho, que estava sem praticar atividade física fora da escola. Ele recusou algumas tentativas, até que um primo o convidou para uma aula experimental de jiu-jistu.
Na primeira vez no tatame, o talento apareceu de imediato. “O mestre Vini perguntou se ele já tinha tido experiência com esporte de contato. Meu marido falou que nenhum. E o mestre já disse que ele levava jeito, porque pegava o golpe certinho e fazia pros dois lados. Isso é difícil de ver logo de primeira”, lembra Aline.
A família, no começo, achou que tanto elogio pudesse ser só um incentivo para manter o aluno na academia. Mas, no mês seguinte, veio o primeiro campeonato em Guararapes, interior de São Paulo. João entrou para “testar” se gostava de competir, e ganhou. No outro mês, mais um torneio, mais um pódio. A partir daí, não parou mais.
Ele rodou praticamente todo o Circuito Interior de Jiu-Jitsu (CIJJ) na faixa branca, competindo em quase todos os eventos da região.
Quando passou a disputar campeonatos em São Paulo por federações maiores, como CBJJE, manteve o alto nível: foi 1º colocado em Brasileiro, Sul-Americano, Pan-Americano, Internacional e Nacional, além de um 3º lugar no Mundial. Em três categorias diferentes do CIJJ, também foi campeão.
Estreia na IBJJF e novos desafios
Agora, na faixa laranja, João estreou em outro patamar: a International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF), com registro oficial e carteirinha de atleta. As lutas passam a constar no currículo internacional, o que aumenta o peso de cada resultado e o nível de dificuldade dos campeonatos.
“Esses campeonatos maiores não são só pra ver se a pessoa está bem ou não. Vai quem quer ser atleta mesmo, porque tudo é mais caro: inscrição, viagem, hospedagem. Não é o pessoal que só gosta de competir; é quem leva o jiu-jitsu como projeto de vida”, explica Aline.
Em Florianópolis, João ficou em 3º lugar em sua categoria na faixa laranja. A mãe conta que o resultado veio com um misto de orgulho e frustração, pois o adversário encaixou um golpe, João tentou sair, mas o árbitro interrompeu antes de haver finalização completa ou defesa. “Ele ficou bem frustrado, mas isso também faz parte. Agora é entender o que cada federação exige, se esperam finalizar ou não, para ele não ser surpreendido de novo”, analisa a mãe.
Rotina de atleta aos 14 anos
A vida escolar também precisou se adaptar. Em 2026, João mudou de turno na escola: saiu do período da tarde para estudar de manhã, no 9º ano, e organizar melhor a rotina de treinos.
“Agora ele estuda de manhã, vai pra musculação à tarde e, a partir das 17h, já começa os treinos. Fica até às 21h. Então, são de 3 a 4 sessões por dia”, conta Aline. Os campeonatos, em geral, acontecem aos domingos, o que ajuda a não acumular faltas, mas as viagens cada vez mais longas (para outros estados) começam a pesar no calendário escolar.
Mesmo assim, ela garante que o filho concilia bem as responsabilidades. A prioridade é que o desempenho nos estudos acompanhe a evolução nos tatames, ainda que, vez ou outra, uma sexta-feira precise ser “negociada” por causa de longas horas de estrada.
Família em modo equipe: doces, cestas e vendas para custear o sonho
Por trás do quimono, há um esforço coletivo típico das famílias que abraçam o alto rendimento sem patrocínio fixo. Aline é empreendedora e transformou talento na cozinha em combustível para a carreira do filho: “Faço doces e cestas para vender e ajudar nas despesas dele”, conta, à frente do perfil @docelineatelier.
João também veste a camisa fora do tatame. Ele vende os produtos na rua e na própria academia, ajudando diretamente nos custos com inscrições, viagens e hospedagens. O pai, Bruno, eletricista, completa o trio de apoio com o trabalho formal, encaixando folgas e horários para acompanhar o filho quando possível.
“Temos alguns parceiros que ajudam com uma coisa ou outra, mas ir pra fora do Brasil ainda parece um sonho distante. Só esses campeonatos fora do estado já ficam com valores exorbitantes”, admite Aline.
Sonhos de Europa, Estados Unidos e além
Mesmo com os pés fincados na realidade, João já mira voos maiores. Ele pensa em disputar torneios na Europa e nos Estados Unidos, onde o jiu-jitsu é mais valorizado profissionalmente, e até em morar fora do Brasil no futuro. “Infelizmente, aqui o jiu-jitsu ainda não é tão valorizado, mas ele já fala em morar fora, viver do esporte. Ele gosta, treina focado, vai muito bem”, diz a mãe.
O calendário de 2026 mostra que o sonho está em movimento:
- 01/03 – Internacional IBJJF, em Curitiba
- 08/03 – etapa em Salvador
- 12/04 – etapa em Recife
Todos eventos de alto nível, que exigem logística trabalhosa e investimento pesado para qualquer família, ainda mais sem patrocínio fixo.